Por séculos, mulheres que conheciam o uso das ervas, parteiras, curandeiras e estudiosas foram perseguidas e queimadas vivas por desafiarem o conhecimento que era majoritariamente controlado e direcionado aos homens.
O medo que o patriarcado tinha da sabedoria feminina foi mascarado de moral, religião e ordem social.
Será que esse medo realmente acabou? Vamos refletir juntos?
A lenha que nos queima hoje tem outros nomes.
A sociedade nos cobre de exigências, comparações sileciosas, culpas. Precisamos ser produtivas o tempo todo. O descanso se transforma em culpa quando é beneficiado pela mulher. A diversão é praticamente proibida pra uma mulher que decidiu ser mãe. Como ousamos ser maiores e melhores do que nossos companheiros?
Se olharmos pra intuição então, somos demonizaras, chamadas de loucas.
Ja falei num post anterior sobre o rouxinol, que a intuição nada mais é que o nosso sentido aguçado de empatia, a condição que nos foi imposta sobre a responsabilidade de cuidar.
Meu lado místico sempre vai olhar pra esse dom como poder divino, conexão com a terra e sabedoria ancestral. Não estou aberta a mudanças de conceito, desculpe. Essa lenha eu já apaguei e não consegue me atingir.
Na minha história familiar, tem uma peculiaridade que sempre foi natural pra mim até que eu comecei a ver o julgamento por trás de tudo aquilo, e não era normal.
Minha vó veio de uma transição de gerações. Nasceu na década de 30. A mulher era criada pro casamento, para "o lar". Pura hipocrisia, já que a história geracional das ancestrais dela não era esse conto de fadas todo. Bisa chutou o pai delas, minha tataravó também nunca aceitou as traições e palhaçadas do patriarcado. Mas de alguma forma a necessidade de ser aceita pela sociedade fez minha vó aceitar essa criação.
Enfim, casou. Um casamento que não tinha amor e muito menos respeito. Mas esse post não é pra destrinchar essa lado da vida dela. Meu ponto é, em meados dos anos 60-70, minha vó se viu divorciada, na realidade, só abandonada mesmo. Já que meu avô resolveu viver uma aventura e construir uma nova família.
Ela, sem estudos, sabia escrever o básico e ler. Tinha aprendido a costurar na adolescência, mas não conseguia recursos pra ter seu próprio ateliê, com dois filhos e todas as contas da casa para administrar. De repente ela encontra um jogo de cartas ciganos.
Mulheres como a minha vó, que sempre foram intuitivas, conhecedoras da magia, das propriedades das plantas e energias ao nosso redor, silenciosamente sustentaram inúmeros lares, como benzedeiras, cartomantes, curandeiras, conselheiras espirituais.
E não foi um mar de rosas não. Uma sociedade extremamente preconceituosa e inquisidora até os tempos de hoje. Resistente as diversas presenças do sobrenatural ao nosso redor, nos mínimos detalhes.
Ela foi ameaçada, chantageada, julgada, eu e minha mãe conviviamos com os comentários nojentos e absurdos. Eu cresci com medo de assumir o que eu realmente era.
O que fazer onde os homens se fizeram ausentes? Desistir? Jamais!
E nesse ambiente com uma mulher se desdobrando em jornadas duplas e triplas trabalhando em escritório, e pessoas indo na minha casa se consultar com minha vó, eu cresci. Admirando e me orgulhando da história que elas escreviam pra nós e que eu ajudei a escrever uns anos mais tarde.
E eu cresci entre as duas, entendendo que, para muitas mulheres, magia nunca foi fantasia, foi estratégia, foi o meio de trabalho e sobrevivência, como qualquer outra pessoa. Foi coragem. Foi a única porta possível quando todas as outras estavam trancadas.
E talvez seja justamente isso que ainda assusta tanta gente: a mulher que não quebra diante da ausência masculina, a mulher que cria seu próprio caminho, a mulher que encontra conhecimento onde disseram que não havia ciência.
A fogueira que queimou nossas ancestrais hoje tenta nos consumir de outras formas, ridicularizando nossa sensibilidade, subestimando nossa força, tentando nos convencer de que precisamos “provar” tudo o que sentimos.
Eu não preciso provar nada. Minha memória prova por mim e minha ancestralidade prova por mim.
E toda vez que escolho honrar minha intuição, eu honro a mulher que minha avó precisou ser.
Eu honro a força que minha mãe carregou sem nunca reclamar.
Eu honro o silêncio de todas as que vieram antes.
A magia que corre na minha família é herança, resistência, sobrevivência.
E isso ninguém apaga.
Eu mesma já ouvi que “vivo no mundo imaginário” por escolher ouvir a minha intuição, por acreditar nas sincronicidades, por respeitar a linguagem invisível das coisas.
Mas o que muitos chamam de fantasia, eu chamo de memória.
Minha crença nasceu daquilo que vivi, das mulheres que vieram antes de mim, dos silêncios que precisei romper para me reconectar ao que é verdadeiro.
Ser mística, pra mim, é lembrar. É continuar acendendo uma chama antiga, aquela que tentaram apagar quando ensinaram as mulheres a duvidar do próprio poder.
A fogueira que antes queimava corpos hoje tenta consumir a alma.
Ela se acende em cada vez que uma mulher é ridicularizada por sentir demais, por acreditar, por se expressar de forma livre.
Mas toda vez que escolho não me apagar, apago um pouco dessa fogueira dentro e fora de mim.
Lembrar é resistir.
Lembrar que fomos perseguidas não por sermos frágeis, mas por sermos potentes.
Cada vez que uma mulher se reconecta com as plantas, com o próprio corpo, com o silêncio e com a natureza, ela apaga um pouco dessa fogueira.
Cada vez que fala a sua verdade, ela resgata uma força que estava adormecida, mas nunca extinta.
Porque ser mulher é, acima de tudo, um ato de memória.
E toda lembrança é uma forma de renascimento.
Que possamos seguir transformando medo em potência, uma chama de cada vez.
E o mais importante, obrigada mãe e vó por serem vocês!
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