Vamos definir o "sair sozinha"?
Quantas vezes você se sente confortável de sair para tomar um café sozinha, ir ao cinema, tomar um vinho, jantar num restaurante sofisticado, viajar pra algum lugar novo?
Soa tudo muito tão comum, mas acredite se quiser, para muitas mulheres isso ainda carrega um peso invisível.
Vamos refletir melhor sobre isso?
A primeira coisa que pensamos é sobre a companhia.
Ah, Flavia, mas é mais legal quando temos alguém pra conversar. Eu concordo. Mas e se eu te contar que eu amo pegar um livro ou o tablet, ir até a minha cafeteira favorita (ok, estamos falando do Starbucks Reserved que fica numa das principais avenidas de Praga), escolher um café filtrado de uma seleção nova. Achar um cantinho escondido, de preferência onde eu consiga olhar pra rua e me perder nos pensamentos, e ficar horas curtindo meu café, meu livro e com o fone de ouvido com a minha playlist favorita.
E tem mais, e se eu te contar que as vezes meus amigos vão comigo pra me acompanhar nesse momento, cada um no seu livro, nos seus pensamentos, no seu momento.
E tem mais, e se eu te contar que as vezes meus amigos vão comigo pra me acompanhar nesse momento, cada um no seu livro, nos seus pensamentos, no seu momento.
Percebe como o momento e o prazer da atividade são tão gostosos e prazerosos pra mim que chega a ser contagiante para as pessoas ao meu redor?
Por anos a sociedade impôs que espaço público não era lugar de mulher.
Estamos falando de séculos onde a mulher foi condicionada e limitada ao cuidado, a obediência, a vigilância e a organização. Sair pra rua e tomar decisões? Assunto de homem.
Quebrar esse padrão era um ato de rebeldia!
Na Europa do século XIX, uma mulher desacompanhada era julgada, olhada com desconfiança, considerada mulher de "má reputação". Nesse período as mulheres eram associadas à pureza, modéstia, obediência. Havia o conceito de reputação e também a sexualidade feminina como moeda de troca. Isso fazia com que a mulher fosse educada para depender do homem, seja o pai, irmãos ou marido. Nem direito ao voto ou CPF tinhamos acesso. Minha vó, foi considerada incapaz de trabalhar de forma regular e registrada, ter conta no banco até 1962!
E sabe o que assustava a sociedade patriarcal da época, cara gafanhota? O medo de que mulheres que saissem sozinhas comecassem a ter ideias perigosas, de liberdade, de independência. Mas olha só como nós sempre fomos um sinônimo de força e independência, dai a necessidade do patriarcado de nos enjaular e alimentar a rivalidade feminina.
E olha pra nós, nos dias de hoje, após conquistarmos tanta liberdade e independência, carregando essa visão de exclusão ou solidão quando nos permitirmos viver experiências sozinhas?
Existe uma tensão silenciosa constante nas nossas vidas. Quantas vezes nos pegamos pensando "O que vão pensar?", "será que é seguro?", "como vou me divertir sozinha lá?"
Nada mais é que a sociedade patriarcal apontando o dedo pra nós e nos chamando de vulneráveis. Pra ajudar ainda corremos o risco de sair em algum post sem noção falando de solidão/solitude.
O que acontece quando desafiamos o mundo e quebramos esse padrão?
Silenciosamente dizemos "eu não preciso pedir licença para estar onde eu bem entender. O mundo também pertence a mim e a todas as outras mulheres."
Consegue perceber como rompemos com séculos de silêncio e opressão? A liberdade começa nos pequenos atos cotidianos.
Reaprenda a estar só. Estar sozinha não é solidão. É liberdade.
É o exercício de estar inteira em si, sem depender da validação ou da companhia do outro para existir.
Talvez seja por isso que sair sozinha ainda incomode tantos. Porque é um ato que desestabiliza as velhas estruturas.
E porque, no fundo, o mundo ainda não se acostumou a ver uma mulher livre.
Sem defeitos amei
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