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Termos e artimanhas do patriarcado — vamos entender melhor?



Ano passado a empresa que trabalho me chamou pra fazer uma apresentação no dia internacional do direito das mulheres. Pensei "nada melhor do que falarmos das situações incomodas que sofremos no dia a dia mas que são tão enraizadas na sociedade, que ninguém percebe que comete". - Eu não podia chegar gritando "fogo nos machistas" e queimando colchão né? 😅

Hoje quero escrever de forma mais abrangente sobre as situações e dar nome a elas, assim fica mais fácil de entender e talvez refletir sobre a raiz desse sistema que faz mal para a sociedade como um todo.

Alerto que esse post será didático e com muitas definições para facilitar o nosso entendimento no assunto, ok? Se prepare. 

Vamos a definição principal: O patriarcado é um sistema social, político e simbólico em que o poder é concentrado nas mãos dos homens.
Ele determina hierarquias de gênero, naturaliza desigualdades e define papéis fixos: o homem como autoridade e a mulher como subordinada.
Funciona por meio de instituições (família, religião, Estado) e também pela interiorização das normas — quando até as mulheres passam a reproduzi-las sem perceber.

Quais as formas e práticas que o sistema utiliza para oprimir?

- Violência simbólica: Forma de dominação invisível, que atua por meio de símbolos, linguagem e valores.
Não impõe pela força física, mas pela aceitação inconsciente das regras do poder.

Pierre Bourdieu, especialmente em seu livro A Dominação Masculina (1998), explicou como a violência simbólica é uma das formas mais sutis e poderosas de opressão das mulheres, porque ela acontece sem parecer violência.

Ela se manifesta quando valores, regras e imagens sociais fazem as mulheres acreditarem que seu papel, comportamento ou corpo devem seguir certos padrões “naturais”, mas que, na verdade, foram construídos para manter relações de poder.

Exemplo: quando a mulher acredita que “não é lugar dela” falar, liderar ou decidir, porque foi condicionada a se calar.
Outro exemplo bem comum é a forma como a sociedade impõe às mulheres um ideal estético (corpo magro, jovem, sem rugas, cabelo liso, pele perfeita). Isso nada mais é que o controle simbólico do corpo feminino. 

Eu escuto muito o termo "Você está ótima para a sua idade, não aparenta ter 43 anos". Gente, envelhecer não é um problema! 
Outra situação de violência simbólica que eu passo e acredito que muitas de vocês vão se identificar, eu trabalho numa área majoritariamente masculina. Quando digo que trabalho com TI automaticamente as pessoas perguntam se eu sou desenvolvedora. Ser gerente de Infraestrutura ainda é associado a figura do homem. Foram anos de briga para me fazer ser ouvida, acreditem. 


- Interiorização do patriarcado: Processo em que a mulher incorpora as crenças e valores do sistema machista como se fossem naturais.
Esse é um que me deixa bem irritada, mas a gente sabe que em algum momento todos fizemos parte disso. A desconstrução leva anos. 

Exemplo: mulheres que defendem a submissão feminina, acreditando que isso é virtude e não controle. Ou que repreendem quando a outra mulher não é calma, porque isso é esperado de nós. 
Quando somos cobradas pelo cuidado da casa e da família, muitas vezes tendo jornadas triplas enquanto ninguém faz o mesmo com o homem.


- Mito da rivalidade feminina: Narrativa cultural que estimula a competição entre mulheres — seja por beleza, atenção masculina, poder ou status.
Essa rivalidade é uma ferramenta do patriarcado para impedir alianças femininas e manter o foco fora da luta estrutural.

É muito comum vermos casais em que a mulher automaticamente odeia a ex ou qualquer outro relacionamento anterior do alecrim dourado. A ex é sempre considerada a louca, a errada, o alvo. 
Conheço mulheres que vivem um relacionamento assombradas com a ideia de que o namorado ainda quer se relacionar com a ex. 


- Gaslighting:  Manipulação psicológica em que o agressor faz a vítima duvidar de sua própria percepção da realidade.
Exemplo: um parceiro nega constantemente fatos, minimiza sentimentos ou distorce conversas até que a mulher acredite que está “louca” ou exagerando.
Vem do filme Gaslight (1944), onde o marido apagava as luzes e negava ter feito isso para confundir a esposa.
Isso mina a auto estima da vítima, causando confusão mental, culpa e perda de autoconfiança


- Mansplaining: Junção de man (homem) + explaining (explicar).
Refere-se ao ato de um homem explicar algo a uma mulher de forma condescendente, presumindo que ela não entende — mesmo quando ela domina o assunto.
É uma forma sutil de deslegitimar a voz feminina.


- Manterrupting: De man + interrupting.
O hábito de homens interromperem mulheres em reuniões, conversas ou debates — evidenciando a dificuldade de reconhecer a fala feminina como legítima.
É um reflexo do privilégio de gênero.


- Bropriating: De bro (gíria para “mano”) + appropriating (apropriar-se).
Quando um homem se apropria da ideia de uma mulher e recebe crédito por ela.
Exemplo: em uma reunião, uma mulher dá uma ideia, é ignorada — e minutos depois um homem repete e é elogiado.


- Ghosting: Ato de desaparecer subitamente de uma relação (romântica, de amizade ou profissional) sem explicação.
É uma forma moderna de abandono emocional e de negação da responsabilidade afetiva.
Embora não seja exclusivo dos homens, tornou-se um comportamento frequente em dinâmicas influenciadas pela cultura do descarte e pela imaturidade emocional reforçada pelo patriarcado.


- Love bombing:  Fase de excesso de atenção, elogios e promessas no início de uma relação — usada para criar dependência emocional.
Quando a mulher se entrega, o agressor muda de comportamento, alternando carinho e rejeição.
É um ciclo de manipulação emocional.


- Manspreading: De man (homem) + spreading (espalhar).
Refere-se ao ato de homens sentarem-se com as pernas muito abertas em locais públicos, ocupando mais espaço do que o necessário, especialmente em transportes coletivos.
É um símbolo corporal de poder e dominância no espaço público, enquanto as mulheres são socialmente ensinadas a “se encolher”.


- Tokenism: De token (símbolo, representação).
Quando uma mulher (ou minoria) é colocada em posição de destaque apenas para cumprir uma cota simbólica, sem real poder de decisão.
É comum em empresas que exibem diversidade, mas mantêm as mesmas estruturas de poder masculinas.


- Slut-shaming: De slut (termo pejorativo para mulher sexualmente livre) + shaming (envergonhar).
É o ato de criticar, julgar ou humilhar mulheres por suas escolhas sexuais, roupas ou comportamento.
 É uma forma direta de controle simbólico da sexualidade feminina.


- Tone policing: De tone (tom de voz) + policing (policiar).
Acontece quando alguém — geralmente um homem — desqualifica o argumento de uma mulher por causa do tom com que ela fala (“você está muito nervosa”, “não precisa se exaltar”).
É uma estratégia para silenciar mulheres e invalidar emoções legítimas.


- Breadcrumbing: De breadcrumb (migalha de pão).
Quando alguém mantém outra pessoa emocionalmente envolvida com mensagens vagas, promessas e atenção mínima, sem intenção real de construir vínculo.
É uma forma sutil de manipulação afetiva e controle emocional, muito comum em relações digitais.


- Nice guy syndrome: Refere-se a homens que se dizem “bonzinhos”, mas se frustram quando a mulher não corresponde às suas expectativas afetivas, revelando que a “bondade” era uma forma de controle disfarçada de gentileza.
Expressa o que Bourdieu chamaria de dominação simbólica disfarçada de cortesia.


Olha, a lista de termos é grande, e se eu continuar pesquisando, vou encontrar mais um monte. Mas o meu intuito aqui é dar luz as situações que nos causam desconforto, e muitas vezes não entendemos o porquê. O machismo estrutural esta enraizado com suas teias de normas, leis e costumes para sustentar essa desigualdade. 
O resultado disso é a misoginia, que é a base emocional do patriarcado.
E com a misoginia, vem a violência em suas diversas formas, seja o abandono afetivo ou até na pior delas, o feminicidio. 

Eu sei que não vou mudar o mundo com minhas idéias e textos, mas se eu conseguir explicar o quão incômodo e nocivo essas situações são pra nós, quem sabe teremos uma sociedade mais empática e responsável num futuro, que eu espero, não tão distante.   

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