Pular para o conteúdo principal

O ciclo do retorno - Reflexão sobre vínculos, controle e o retorno disfarçado de afeto.

Você termina um relacionamento, faz uma super reflexão sobre tudo, entende onde errou, onde se anulou, onde foi que se deixou de lado. A vida segue, e segue muito bem, porque sempre é assim, né?

Dai, de repente, você esta la seguindo sua vida e aparece uma notificação - “oi, tudo bem?” que parece inofensivo, mas tem cheiro de armadilha.
Não é sobre saudade. É sobre controle.

Existe uma linha bem tênue que precisamos fortalecer todos os dias para não cairmos na armadilha do hoovering disfarçado de saudade. 

Hoovering é um comportamento manipulador que acontece quando alguém tenta te puxar de volta para uma relação que já terminou — especialmente depois de você se afastar para se proteger.
O termo vem do verbo inglês to hoover, que significa “aspirar. A metáfora é perfeita: a pessoa tenta “sugar” novamente a sua atenção, o seu tempo e a sua energia emocional.

Essas tentativas podem vir de várias formas — mensagens repentinas, demonstrações de arrependimento, lembranças compartilhadas, ou até promessas de mudança. O objetivo, consciente ou não, é recuperar o controle emocional que foi perdido quando você se afastou.

O hoovering é comum em relações com pessoas que apresentam traços narcisistas ou abusivos, pois elas não lidam bem com a perda de poder. Ao sentir que não têm mais influência sobre o outro, recorrem ao charme, à culpa ou à nostalgia para reabrir o vínculo.

“Pensei em você hoje.”
“Senti saudade.”
“Como você está?”
“Se eu pudesse voltar atrás, faria tudo diferente.”
“Você sempre foi a única pessoa que realmente me entendeu.”
“Eu sei que errei, mas queria que soubesse que ainda me importo.”

Essas demonstrações parecem carregadas de sentimento, mas são iscas emocionais.
O objetivo não é reconexão, é ver se ainda há brecha. "Oi, voce ainda tá aí disponível pra eu te manipular?" Porque eles nunca esperam que o outro lado supere o desastre que eles causaram e se reconstruam.

O narcisista não suporta perder o controle. Quando percebe que o outro se afastou, ele ativa o charme, o discurso doce, a falsa empatia.
Isso não é amor. É reposição de fonte. Ele precisa da sua atenção para se reafirmar.

Reconhecer esse padrão é o primeiro passo para quebrar o ciclo. Quando você responde, não está sendo gentil, evoluída ou educada. É recaída.
O silêncio também é resposta. E preservar a paz não é frieza, é amor-próprio.

Porque no fim, há uma liberdade silenciosa em não voltar.
Em deixar o eco morrer no ar.
E perceber que o verdadeiro recomeço não está em reabrir histórias, mas em escolher não se perder nelas de novo.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Por mim, por você, por nós. Pelas que se foram, pelas que virão.

2025 não ta sendo um dos melhores anos, bem longe disso eu diria. Meu psicológico tem caminhado na beirada do penhasco e, graças a uma longa jornada de quase 7 anos de terapia e auto conhecimento, eu aprendi a olhar pra mim, a me acolher e respeitar (e se fazerem respeitados) os meus limites. Eu não poderia deixar de olhar para aquelas que iluminam meus caminhos, apesar da própria estrada estar escura. Sim, estou falando de mulheres que apoiam umas as outras com sensibilidade, cuidado e principalmente respeito. O patriarcado criou uma sociedade em que as mulheres competem, ao invés de somar, julgam e criticam ao invés de acolher. Pobres delas, vitimas de um sistema cruel que se beneficia com a rivalidade feminina. As minhas preciosas manas que estão comigo nos momentos bons e ruins, eu não poderia deixar de dizer o quão forte eu sinto suas mãos me segurando para não cair daquele abismo que meu corpo teima a fazer de corda bamba. Essas mulheres reconhecem a dor, porque já caminharam sob...

Termos e artimanhas do patriarcado — vamos entender melhor?

Ano passado a empresa que trabalho me chamou pra fazer uma apresentação no dia internacional do direito das mulheres. Pensei "nada melhor do que falarmos das situações incomodas que sofremos no dia a dia mas que são tão enraizadas na sociedade, que ninguém percebe que comete". - Eu não podia chegar gritando "fogo nos machistas" e queimando colchão né? 😅 Hoje quero escrever de forma mais abrangente sobre as situações e dar nome a elas, assim fica mais fácil de entender e talvez refletir sobre a raiz desse sistema que faz mal para a sociedade como um todo. Alerto que esse post será didático e com muitas definições para facilitar o nosso entendimento no assunto, ok? Se prepare.  Vamos a definição principal: O patriarcado é um sistema social, político e simbólico em que o poder é concentrado nas mãos dos homens. Ele determina hierarquias de gênero, naturaliza desigualdades e define papéis fixos: o homem como autoridade e a mulher como subordinada. Funciona por meio de ...

Rosa Luxemburg a voz que ecoa até os dias de hoje

Quando eu fui a Berlin pela primeira vez, fiquei curiosa em relação a umas das praças que eu cruzava sempre: "Rosa-Luxemburg-Platz", e o nome me chamou a atenção.  Estamos falando do ano de 2015 e eu ainda estava fortalecendo minhas leituras e pensamentos críticos (não estou sendo prepotente de dizer que hoje tudo está plenamente definido, e temo que jamais terei lido o suficiente nessa vida para entender tudo o que almejo, graças aos Deuses) Como não tinha minha companheira de debates profundos, Aurya, a.k.a minha gpt, fui no bom e velho Google pesquisar sobre a moça. É nessas horas que eu me orgulho da curiosidade geminiana.  Um novo mundo se abriu naquele instante. E que mundo. Entenda-se que eu cheguei a ler o doido do Mises pra saber que raio de abobrinhas ele defendia. Nessa hora eu fui de uma ponta a outra.  Vamos finalmente aos fatos fascinantes dessa mulher que merecia não somete uma praça, uma rua e uma estação de U-bahn, mas eu nomearia um país inte...